| CAMINO PESSOAL |
Quando comecei a estudar medicina, a principal
motivação era saber algo sobre o funcionamento
de meu corpo e sobre a cooperação entre corpo,
intelecto e emoções. Em termos de interesse básico,
gostaria de estudar uma combinação entre filosofia
e psicologia, mas, segundo meus critérios, achava, na
época, as duas carreiras demasiado teóricas e
distantes de uma sabedoria vital prática para que pudessem
me ajudar a aumentar minha consciência corporal e meu
bem-estar. Com a medicina, adquiri ao menos conhecimentos sobre
uma realidade que existe de fato e é empiricamente demonstrável.
Anatomia e psicologia são a base de nossa vida: sem fígado,
coração e estômago, simplesmente o corpo
não funciona. Mas os conceitos teóricos da filosofia
e o acesso à psicologia demasiadamente racional me pareciam
prescindíveis para o entendimento da correlação
profunda entre corpo e espírito e para meu destino pessoal.
Depois de três anos de curso na Universidade de Viena,
senti que faltava algo essencial na formação de
um médico ocidental: o treino dos sentidos e a expansão
e aprofundamento da consciência corporal relacionados
a esse treino. O conhecimento da medicina fica reduzido a um
campo mental que não tinha influência sobre minha
forma de sentir e de ser.
Nessa época, aprendi tai chi com um velho mestre chinês
chamado Gia-Fu Feng. Foi ele o primeiro a me familiarizar com
o conceito chinês de chi, a energia vital. O tai chi,
embora seja bastante conhecido, é uma arte marcial cuja
eficácia não consiste em velocidade e dureza,
e sim no domínio e concentração do chi.
É chamado também de "meditação
em movimento", que muitas pessoas praticam na China durante
horas, como ginástica para manter a saúde. Durante
esses anos participei regularmente de workshops sobre bioenergética,
uma psicoterapia com orientação corporal, que
teve início com o norte-americano Alexander Lowen e depois
foi desenvolvida por Wilhelm Reich em sua vegetoterapia e análise
do caráter. Minha terapeuta bioenergética esclareceu
de que maneira se pode descobrir a energia do orgônio
a energia vital que Wilhelm Reich descobriu em seus experimentos
médicos e aumentá-la e liberá-la
com certos exercícios.
Minha busca me levou a um iogue. Nas aulas de
hatha e raja ioga, tomei conhecimento do prana, conceito indiano
de energia vital.
Tanto os exercícios bioenergéticos
quanto o tai chi e o pranayama, a respiração
iogue, tiveram basicamente a mesma influência sobre
mim: depois de haver praticado um método após
outro, sentia-me mais leve, com mais clareza, mais centrado
e cheio de um sentimento profundo de felicidade.
Fui à índia para saber mais a respeito desses
sentimentos profundos de felicidade e sobre a abertura externa
e interna de minha faculdade perceptiva, que experimentei
durante os exercícios e na meditação.
Quis aprender mais sobre a forma de chegar a esses estados,
ou de mantê-los durante mais tempo, estados nos quais
se percebem cores intensamente luminosas, os perfumes e odores
se intensificam e os sons têm muita clareza e pureza;
estados nos quais ficamos tão centrados que vemos os
pensamentos virem e marcharem como nuvenzinhas brancas num
dia de azul infinito. Vivi um ano e meio no ashram do Bhagwan
Shree Rajneesh, em Puna. Todos os dias participava da leitura
matinal e pratiquei sua meditação. Vivi numa
cabana de bambu à beira do rio, entre as famílias
da índia, vacas, búfalos e outros sannyasins
o nome dado aos discípulos de um mestre, os
quais seguem o caminho de uma iniciação que
leva à iluminação da consciência.
Essa época mudou profundamente o meu ser. Desde então
consegui sair relativamente depressa das turbulências
da vida cotidiana e das fases tempestuosas da vida e voltar
à fonte, onde habita a felicidade profunda de viver.
A imprensa ocidental afirmou que o Rajneesh Ashram de Puna
era uma seita escandalosa. Divertimo-nos muito ao saber que,
para os jornais Stern e Spiegel, éramos escravos de
um sistema explorador e nos encontrávamos numa espécie
de hipnose contínua na qual vegetávamos sem
vontade própria numa dependência total. Perguntamo-nos,
isso sim, se não era o pessoal da redação
e a maioria de seus leitores os escravos do trabalho em um
sistema de consumo que lhes faz lavagem cerebral com uma suposta
liberdade pessoal, e se não são eles que projetam
seu estresse, sua infelicidade e sua dependência de
obrigações econômicas em nós. Na
realidade, passamos uma época maravilhosa, cheia de
vontade de viver, e eu sentia que era uma grande sorte para
mim poder viver nesse ashram na índia e entre seus
habitantes cuja relação consigo mesmos e com
os outros estava impregnada de respeito, graça e amor.
Depois de alguns meses na então turística República
das Maldivas, onde vivi como o único branco de Himaa
Fuschi, uma ilhota do atol de Malé, e com os aborígenes,
cheguei ao Sri Lanka. O antigo Ceilão está desligado
da beleza de sua paisagem, cheio de rubis e safiras e de uma
quantidade incalculável de pedras semipreciosas. Ali,
com a ajuda de um inglês, cuja família se dedicava
à fabricação de máquinas para
polir e que desde a infância lidava com pedras preciosas
autênticas e falsas, entrei durante uma temporada no
negócio de pedras preciosas. Uma bela tarde, enquanto
desfrutava de um pouco de sol na praia de Mount Lavinia, um
povoado ao sul de Colombo, conheci três médicos
alemães que tinham ido a Sri Lando aprender acupuntura.
Apresentaram-me a seu professor, sir Anton Jayasuriya, que
dirigia a clínica de acupuntura no Colombo South Hospital
em Dehiwala.
Eu tinha aprendido shiatsu em Puna, mas conhecia pouco de
acupuntura. Quando o professor Jayasuriya me perguntou se
queria aprender a medicina chinesa com ele, compreendi que
estava diante de uma grande oportunidade. Durante mais de
um ano trabalhei nessa clínica subvencionada pelo Estado,
já que os pacientes não tinham seguro-saúde
nem tinham como financiar seu tratamento. Junto com a psicoterapia
tínhamos uma sala grande à disposição
das 8 às 13 horas. Nesse período, atendíamos
diariamente entre 500 e 700 pacientes. Vinham de toda a ilha,
em geral como último recurso, quando a medicina ocidental
e os "Dançarinos do Diabo" de seus povoados,
com seu exorcismo e suas conjurações, não
tinham tido êxito no tratamento de suas doenças.
Durante essa época, vi e tratei pacientes com muitas
enfermidades diferentes, em estado bastante avançado,
mais do que em geral vemos no Ocidente, devido à demora
em iniciar o tratamento e ao quadro clínico. Havia
muitos casos de asma brônquica e epilepsia, paralisia
parcial depois de um ataque apoplético, erupções
cutâneas, eczemas, otite média, cataratas e pressão
alta, úlceras e, evidentemente, também doenças
tropicais como elefantíase e paralisia depois de uma
mordida de cobra. Nessa época havia uma equipe de apenas
cinco médicos e, por isso, foi possível acumular
muita experiência prática de diagnóstico,
moxa e acupuntura.
Logo no primeiro dia me dei conta de que ali se aprendia de
forma diferente daquela do Ocidente. O professor Jasuriya
pôs uma agulha no ponto de acupuntura IG11 (intestino
grosso) de um paciente, que se localiza na prega do cotovelo,
quando o braço está em ângulo. Quando
se dispôs a atender o próximo paciente, pediu-me
para colocar uma agulha no mesmo ponto. Foi assim que comecei
a praticar a acupuntura, antes de ter um conhecimento teórico
a respeito. Nas semanas e meses seguintes, aprendi moxa e
acupuntura primeiro de um ponto de vista puramente prático
e empírico. Na situação em que estava,
com tantos doentes e tão poucos acupunturistas, aprendi
a confiar em meu instinto e a desenvolver uma intuição
que encontra rapidamente os pontos certos. Aprendi mais com
meu hara do que com o intelecto.
Durante todos esses anos, houve poucos alunos na clínica.
Os médicos alemães tinham voltado a seus hospitais
e, durante alguns meses, havia, além de mim, só
dois franceses e um médico de Melbourne. Alugamos uma
casa na praia e, durante nossas horas de folga, fazíamos
experiências com digitopuntura e acupuntura uns nos
outros. Dei-me conta de que as agulhas não aumentavam
somente o bem-estar corporal, mas também tinham influência
sobre os sentimentos e as emoções, e me levaram
passo a passo a estados de consciência desconhecidos:
ampliaram minhas faculdades sensoriais, sobretudo os sentidos
corporais de audição e visão, e meus
sonhos ficaram mais nítidos e coloridos. Minha mente
se acalmava, o que me permitia dedicar horas à meditação.
Depois de uma breve estada na Europa, voltei a Puna, onde
se oferecia um curso sobre "Os Cinco Elementos, acupuntura
e medicina chinesa tradicional" na Rajneesh International
Meditation University. Os professores desse curso vinham de
países diferentes como Inglaterra, Estados Unidos (Califórnia),
Dinamarca, Brasil e Pérsia. Eram sannyasins que haviam
aprendido a medicina chinesa com mestres muito diferentes,
mas tinham um ponto em comum: meditavam e praticavam a medicina
chinesa num sentido pleno e tradicional, quer dizer, no sentido
taoísta, que inclui, além do uso de ervas e
aplicação de acupuntura, também exercícios
de respiração, tai chi, qi gong (chi kun), alimentação
de acordo com os Cinco Elementos e meditação.
Essa forma da medicina chinesa tradicional se diferencia muito
essencialmente da medicina praticada hoje na China, que se
converteu nos últimos anos em artigo de exportação
que adota certa atitude "tradicional".
Enquanto trabalhava na clínica de acupuntura em Colombo,
perguntava-me por que notava em alguns pacientes uma melhora
imediata e fulminante com a moxa e a acupuntura, enquanto
outros mostravam pouca ou nenhuma reação ao
tratamento com as agulhas. Observei que as pessoas que realizavam
trabalho físico em geral respondiam melhor ao tratamento
que aquelas que se movimentavam pouco. Quando faz movimento
suficiente, o corpo se mantém flexível e a circulação
é boa e, com isso, a eliminação de impurezas
dos tecidos melhora; por conseguinte, os músculos e
os tecidos conectivos ficam mais permeáveis para o
fluir do chi. Nos livros de acupuntura que me caíram
nas mãos nessas época, não havia nenhuma
declaração precisa sobre o trajeto anatômico
dos meridianos. Os meridianos eram simplesmente desenhados
sobre a superfície do corpo, mas faltavam as indicações
sobre sua profundidade. Comecei a imaginar os meridianos como
um sistema de espaços ocos, cujos canais minúsculos
encontravam-se sobretudo no tecido conectivo solto, entre
os diversos músculos e grupos de músculos e
ao longo dos vasos sangüíneos maiores e dos nervos.
Ocorreu-me a idéia de favorecer a permeabilidade dos
músculos e tecidos conetivos com massagem e trabalho
físico, coisa que, se fosse possível, favoreceria
a reação aos tratamentos com acupuntura.
Alguns anos mais tarde minha hipótese
foi confirmada. Através de um amigo em Paris, conheci
Jack Painter. Partindo do rolfing e da vegetoterapia de Wilhelm
Reich, ele criou a integração postural, um método
de massagens estruturais dos tecidos conectivos, ou trabalho
corporal profundo, que possibilita desfazer tensões
profundas e bloqueios energéticos e corrigir posturas
viciadas, como pernas de vaqueiro ou em X, costas encurvadas
e lordose. Quando se ofereceu para me ensinar mais sobre a
estrutura do tecido conectivo e sobre as fibras musculares,
fui com ele para a Califórnia e comecei um curso de
integração postural.
Com o tempo, cristalizou-se como processo ideal dar ao cliente
aqui se fala de cliente, e não de paciente,
porque os métodos modernos de trabalho corporal exigem
participação e colaboração ativa
primeiro dez ou mais sessões de integração
postural para suavizar as tensões muito arraigadas
no corpo. Também se desfazem certos bloqueios dos meridianos,
e o corpo fica mais permeável para que o chi possa
voltar a fluir livremente. Em seguida começo meu diagnóstico
chinês segundo os Cinco Elementos, com o qual posso,
sobretudo sentindo os doze pulsos, e com a ajuda de um questionário
minucioso sobre os diversos sintomas de calor e frio, averigüar
se os doze órgãos estão cheios ou vazios.
O desnível de energia entre os órgãos
internos equilibra-se em primeiro lugar com uma massagem dos
meridianos, e só depois os sintomas de enfermidades
crônicas são tratados com moxa e acupuntura.
O resultado é que é necessário fazer
um número muito menor de sessões de acupuntura
quando o tecido já foi tratado com trabalho físico
e fica mais permeável para o fluir da energia vital.
Muitos dos sintomas desaparecem até mesmo antes das
sessões, enquanto o cliente está sendo tratado
com integração postural e massagem dos meridianos.
Só depois de tomar o pulso, se houver chi suficiente
nos doze meridianos, começo a aplicar acupuntura, um
método que ajuda a guiar a energia vital para as partes
do corpo ou da mente onde ela é necessária,
mas que só dá bons resultados quando há
chi suficiente, e quando ele flui. Ë parte isso, a acupuntura
não é utilizada somente para tratar doenças,
mas também para aclarar as emoções e
atitudes mentais e promover as faculdades intelectuais.
Desde então, passaram-se muitos anos
e tomei conhecimento de outros sistemas filosóficos
e médicos, mas apesar de tudo os princípios
dos Cinco Elementos continuaram sendo meu modelo favorito
para relacionar os diversos fenômenos da realidade e
compreender sua reação sobre os outros. A principal
razão disso é a relação entre
o mundo material e espiritual, que flui sem esforço,
já que são unidos pela mesma raiz. Como a cultura
ocidental não tem um denominador comum de compreensão
da medicina, psicologia, ciências naturais e religião,
estou contente por haver conhecido e assimilado uma visão
de mundo que me permite unir, perceber e compreender o funcionamento
dos órgãos em nível físico e sua
interação com sentimentos específicos,
emoções, faculdades mentais e processos genéticos.
Como os ensinamentos do Tao e dos Cinco Elementos representam
uma visão global do mundo, transmito-os em seminários
e escrevi este livro.
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