PARTE I
CONCEITOS BÁSICOS DA MEDICINA CHINESA
Deve haver muitos leitores que conhecem
os conceitos básicos da medicina chinesa; se não conhecerem, poderão
encontrar neste capítulo uma introdução sucinta ao Yin e Yang, à visão
chinesa dos órgãos, os canais de circulação da energia ou meridianos,
a força vital chi e o sistema dos Cinco Elementos.
YIN e YANG
Embora hoje em dia os conceitos de "Yin"
e "Yang" façam parte da linguagem comum, são utilizados
com freqüência de maneira imprecisa. Uma das razões é que conhecemos
o Yin e o Yang tanto na cultura chinesa quanto na cultura japonesa.
Essas duas culturas têm um conceito diferente e a definição de Yin
e yang varia entre elas, Muitas vezes são as mesmas pessoas que seguem
uma dieta macrobiótica, fazem um tratamento de shiatsu, interessam-se
por Feng Shui e consultam um médico ou terapeuta que cuida delas com
medicina naturista ou com acupuntura. O shiatsu e a macrobiótica pertencem
à cultura japonesa, o Feng Shui e a acupuntura praticadas aqui são
oriundas da China.
O ponto de vista oriental de Yin e Yang
considera tanto a realidade espiritual quanto a material dos efeitos
de dois pólos ou forças opostos que, por sua vez, são dependentes
um do outro: Yin e Yang. Essa maneira dual depensar não nos é estranha.
As raízes da cultura ocidental tanto do helenismo e de suas
filosofias ou religiões, quanto da cultura judaica e cristã
baseiam-se numa dualidade básica. Encontramos essa dualidade em conceitos
como "matéria" e "energia" na física, bem e mal,
céu e terra, cristianismo e islamismo, e igualmente nos sistemas binários
de nossos ordenadores. Esse parentesco básico e espiritual deve ser
a razão principal pela qual o Ocidente adotou uma parte muito maior
do patrimônio cultural do Japão e da China do que, por exemplo, dos
índios norte-americanos ou dos dogons da África Central.
Mesmo assim é importante compreender que existe uma diferença fundamental
enter o conceito oriental de Yin e Yang e o princípio de dualidade
do Ocidente. Yin e Yang são dois opostos que, juntos, formam uma unidade.
Um depende do outro e são realidade somente em união com seu pólo
oposto. O símbolo que conhecemos de Yin e Yang representa a lei universal
da eterna transformação. Significa que um deles, quando chegou a seu
apogeu, transforma-se no outro. O ponto branco dentro do campo negro
e o ponto negro dentro do campo branco significam que a essência de
um contém em seu núcleo a essência do oposto. Isso sugere portanto
que não há nada que seja apenas Yin ou Yang, negro ou branco, feminino
ou masculino, magnético ou elétrico, passivo ou ativo, bom ou mal,
escuro ou claro. Significa que as mulheres também têm características
masculinas e os homens, qualidades femininas, que uma maldade pode
ter algo de bom e um ato de bondade pode transformar-se em seu oposto.
Yin e Yang não são conceitos absolutos. Atuam sempre relacionados
um com o outro e descrevem a qualidade relativa dos diversos fenômenos
e manifestações, e as relações entre a realidade física e a realidade
imaterial. Um exemplo: no corpo humano, o peito é definido em relação
às costas como Yin; mas, em relação à pélvis, ele é Yang. Outro exemplo:
em relação ao dia se diz que a noite é Yin, mas em relação à abóboda
negra do Universo a nossa noite na Terra é Yang, pois, ainda que pouca,
contém uma pequena quantidade de luz.
A cultura ocidental tende, ao contrário, a pensar em conceitos absolutos.
Nossa educação nos ensina a diferenciar claramente entre o bem e o
mal. Nos filmes clássicos de bangue-bangue, o herói usa um chapéu
branco e é simpático, enquanto os bandidos usam chapéus pretos, não
estão barbeados e, além disso, são antipáticos. A maioria dos filmes
policiais segue um modelo muito simples: os bons e os maus estão desde
o princípio claramente marcados, não se transformam no decorrer da
história e o final está claro: o mau morre.
O símbolo de Yin e Yang descreve outra visão da realidade: nem Yin
nem Yang podem ser considerados maus ou bons. O símbolo de Yin e Yang
mostra uma forma e uma maneira através da qual as coisas se transformam.
Trata-se de uma descrição, e não de um juízo de valor. Expressa que
os opostos se atraem, que se condicionam mutuamente, e que cada coisa
e cada processo se converte cedo ou tarde em seu contrário. As seguintes
combinações de Yin e Yang reproduzem a visão chinesa que, como já
dissemos, pode variar em termos de aplicação e pode diferir dos conceitos
japoneses. Quando se utiliza as categorias de Yin e Yang, é importante
tomar consciência da natureza relativa e das polaridades descritas.
CARACTERíSTICAS GERAIS
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Y I N |
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Y A N G |
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Matéria |
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Energia |
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Próton |
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Elétron |
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Força
centrípeta |
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Força
centrífuga |
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Solidificação |
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Expansão |
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Movimento
descendente |
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Movimento
ascendente |
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Terra |
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Céu |
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Horizontal |
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Vertical |
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Escuridão |
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Luz |
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Noite |
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Dia |
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Frio |
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Calor |
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Lua |
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Sol |
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Prata |
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Ouro |
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Inverno |
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Verão |
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Fim |
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Princípio |
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Negativo |
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Positivo |
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Feminino |
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Masculino |
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Mole |
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Duro |
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Entrar |
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Sair |
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Quietude |
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Movimento |
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Lento |
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Rápido |
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Dentro |
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Fora |
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Receber |
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Dar |
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Molhado |
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Seco |
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Campo
de gravitação |
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Crescimento |
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Raiz,
tronco |
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Galhos,
folhas |
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Fruto |
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Germe,
brotos |
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Base |
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Ácido |
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CORPO E PERSONALIDADE
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Y I N |
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Y A N G |
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Parte da frente |
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Parte de trás |
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Metade
esquerda |
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Metade
direita |
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Parte
inferior |
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Parte superior |
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Tronco |
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Membros |
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Pernas |
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Braços |
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Pélvis |
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Cabeça |
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Órgãos
compactos (Zang) |
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Órgãos
ocos (Fu) |
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Yong
Qi |
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Wei
Qi |
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Sangue |
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Energia |
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Encolher |
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Esticar |
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Tranqüilidade
e repouso |
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Movimento
e ação |
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Digestão
e reprodução |
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Luta
ou fuga |
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Parassimpático |
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Simpático |
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Acetilcolina |
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Adrenalina |
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Ritmo
cardíaco |
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Ritmo
respiratório |
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Instinto |
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Inteligência |
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Introvertido |
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Extrovertido |
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Silencioso,
calmo |
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Falador,
esperto |
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Os
pés na terra |
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Prazer
em experimentar |
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Conservador |
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Progressista |
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Contemplativo |
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Excitável,
reativo |
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Depressivo |
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Eufórico |
A VISÃO CHINESA DOS ÓRGÃOS
A cultura chinesa tem uma visão dos órgãos
e tecidos completamente diferente da ocidental. A razão é que os
chineses não vêem o corpo e a alma como entidades separadas, como
nós. Na medicina chinesa, cada órgão tem não só uma função psicológica,
mas também emocional, intelectual e espiritual. Não considera o
cérebro a sede da alma e do espírito, e sim cada célula do corpo
e também o campo magnético do organismo. Por conseguinte, os órgãos
internos são entendidos como unidade corpo-alma-espírito; não são
definidos como formas anatômicas com funções psicológicas simples.
Cada órgão é, portanto, parte do conjunto da personalidade, e suas
ações recíprocas com outros órgãos são de importância vital para
a plenitude do sentir, pensar, querer e atuar.
Por esse motivo, os órgãos não são vistos como unidade funcional
psicológica, e sim como expressão das cinco forças elementares em
intercâmbio constante. Corpo, alma e espírito são considerados formas
de expressão dos cinco elementos que constituem a raiz comum dos
mais diversos fenômenos da vida. A visão dos órgãos difere tanto
que nem sequer coincidem com as definições anatômicas. O estômago,
o duodeno e os primeiros quinze centímetros do intestino delgado,
por exemplo, são considerados pela medicina chinesa como um único
órgão, o Estômago. Os chineses concebem o processo da digestão
o desdobramento dos alimentos em partes isoladas, um processo que
se inicia na cavidade bucal, e a absorção de carboidratos, albumina
e gorduras sobretudo pela parte inicial do duodeno como tarefa
de um único órgão, o Estômago, ao qual se atribui, sendo Yang, ou
um órgão oco, o elemento Terra.
Outro exemplo: a compreensão chinesa do baço não compreende somente
este órgão, mas também o pâncreas e todos os tecidos linfáticos
e o resto dos órgãos de nosso corpo. Por isso este órgão é chamado
de Baço-Pâncreas. A função principal do Baço-Pâncreas é a construção
e manutenção da substância física. Nesse sentido é que se junta
ao pâncreas, que produz a maior parte das enzimas da digestão e
todas as células e órgãos que constituem a base física do sistema
imunológico, como as amídalas, os gânglios linfáticos, as plaquetas
Peyer e a polpa branca do baço em um só órgão, o órgão Yin do elemento
Terra.
Os órgãos Zang e Fu
A medicina chinesa distingue seis órgãos Yin e seis órgãos Yang.
Os órgãos Yin são chamados de Zang; o ideograma que representa Zang
significa "compacto" ou "sólido". Os seis órgãos
Zang têm uma consistência mais compacta e um teor mais elevado de
parênquima que os seis órgãos Fu. São chamados também de órgãos-armazém
porque, além de suas funções fisiológicas, recebem e armazenam formas
de energia vital, o chi, e ainda a produzem e transformam. Os seis
órgãos Zang são o Coração, o Pericárdio ou Circulação-Sexo, os Rins,
os Pulmões e o Baço-Pâncreas.
Uma maneira fácil de lembrar quais são os órgãos Zang é: os órgãos
que comemos são todos Zang; não é costume comer os órgãos Yang,
pelo menos no Ocidente.
Os seis órgãos Yang são chamados de Fu. O ideograma Fu significa
"oco". Os órgãos ocos são o Estômago, o Intestino Delgado,
o Intestino Grosso, a Beixa, a Vesícula Biliar e o chamado Triplo-Aquecedor.
A principal função dos órgãos Fu é tomar e digerir os alimentos,
a absorção das partes nutritivas pelo sangue e a expulsão dos detritos
pela urina, pelo suor e pelas fezes. A tarefa do Triplo-Aquecedor
é a regulação da temperatura corporal e a coordenação das funções
do peito, do ventre e da pélvis, além da coordenação entre a profundidade
e freqüência da respiração, da circulação, da digestão e da sexualidade.
Cada elemento é atribuído um órgão Zang e um órgão Fu. Esses pares
de órgãos receberam o nome de "órgãos acoplados". Suas
funções fisiológicas, emocionais, intelecutais e espirituais estão
estreitamente ligadas entre si, como, por exemplo, as funções dos
Rins e da Bexiga, do Fígado e da Vesícula Biliar. Todo órgão Zang
materializa a força Yin e todo órgão Fu representa a força Yang
do mesmo elemento.
OS MERIDIANOS
Os meridianos são canais diminutos do corpo
por onde flui a energia vital ou chi. Os pontos de acupuntura ou
acupressura são aberturas do sistema de meridianos na superfície
do corpo, por onde é possível afetar o fluxo de chi.
A medicina chinesa tradicional vê os meridianos como uma rede que
une o interno ao externo: os órgãos internos à superfície do corpo,
os tecidos caos órgãos sensoriais, as emoções aos pensamentos, Yin
a Yang, a terra ao céu. O sistema de meridianos é composto de canais
de energia que se encontram sobretudo no eixo longitudinal do corpo.
Como exceções podemos lembrar os vasos Lo e como meridiano principal
o Dai Mai, um dos oito vasos maravilhosos ou meridianos excepcionais,
que rodeia a cintura como um cinto.
A rede dos canais de energia parece-se, em sua estrutura básica,
com o sistema dos meridianos da Terra: os meridianos dos órgãos
correspondem, nessa comparação, aos graus de longitude, os vasos
Lo aos graus de latitude e o Du Mo ao equador. No Huang Di Nei Jing,
a obra clássica do Imperador Amarelo sobre a medicina interna, datado
aproximadamente do século III a.C., é descrito com detalhes e precisão
o trajeto dos meridianos e o efeito dos pontos de acupuntura. Neste
livro há comparações dos meridianos com grandes rios da China que
atravessam o país, regam-no e fertilizam-no. O ideograma chinês
para meridiano é Jinge significa "rio, caminho ou trilha",
mas também "vaso sangüíneo".
O trajeto dos meridianos segue, durante uma parte, o trajeto dos
vasos sangüíneos e dos nervos, e o chi, por outro lado, flui por
gretas e canais finíssimos do tecido conjuntivo. Essas gretas formam-se
sobretudo pelas diversas ligações dos músculos e grupos de músculos,
assim como pelas capas de tecido conjuntivo que envolvem grandes
partes do corpo como, por exemplo, a Fascia thoracolumbalis.
No Huang Di Nei Jing são descritos os 44 Jings, ou meridianos, com
seu trajeto e sua função. Entre os mais importantes estão os doze
meridianos e seus doze ramos profundos, que passam pelo interior
do corpo e unem cada meridiano dos órgãos a seu órgão de origem
e aos outros órgãos. No livro do Imperador Amarelo também são descritas
as oito grandes correntes, também chamadas de "oito vasos maravilhosos"
ou "meridianos milagrosos". Entre eles destancam-se sobretudo
o Ren Mai(ou o Vaso da Concepção) e o Du Mai (o Vaso Governador),
que percorrem a linha central da parte da frente e da parte de trás
do corpo. Dizem que são "o mar de Yin" (Ren Mai) e "o
mar de Yang" (Du Mai), e constitui o coração do sistema de
meridianos. O conteúdo do Tao curativo é os cinco elementos e os
doze meridianos dos órgãos correspondentes, motivo pelo qual não
se fala aqui do Ren Mai, nem do Du Mai. Este tema é tratado detalhadamente
em outro livro do autor, intitulado Tao de la medicina (1996, Editorial
Haug).
Os doze meridianos dos órgãos formam pares: a cada meridiano Yin
corresponde um meridiano Yang do mesmo elemento. Por isso se fala
de "dois meridianos acoplados", cuja energia flui por
dois canais ou represas, os vasos Lo, por meio dos quais eles se
equilibram mutuamente. Cada meridiano de um órgão tem seu próprio
vaso Lo, que vai desde esse ponto Lo até o ponto Yuan(ou ponto Fonte)
do meridiano acoplado. É através dos vasos Lo que se restabelece
o equilíbrio de um órgão e do meridiano correspondente, sobretudo
mediante o meridiano acoplado, que sofre excesso ou falta de chi.
A função dos meridianos e dos valos Lo é a provisão de chi aos órgãos
e tecidos, uma função parecida com a da circulação sangüínea, que
leva oxigênio e substâncias nutritivas a todas as partes do corpo.
A saúde de um órgão interno, a força dos músculos e tendões, ossos
e dentes, assim como a sensibilidade, a compaixão, o amor, a segurança
em si mesmo e uma mente clara está garantida sempre que houver energia
vital suficiente nas zonas correspondentes, e que ela flua.
Os exercícios propostos neste livro estimulam o fluxo de chi pelos
meridianos e seus órgãos, tecidos e órgãos sensoriais correspondentes.
Se forem praticados com regularidade, ajudam a manter a saúde, impedindo
o surgimento de doenças cujo primeiro estágio costuma ser
causado pela falta prolongada de chi, e só muito tempo depois é
que surgem os primeiros sintomas físicos e promovem uma integridade
orgânica de corpo, emoções e pensamentos.
CHI, A ENERGIA VITAL
Chi é a palavra chinesa para força vital ou energia vital. A palavra
japonesa correspondente é kie, na ioga, a mesma essência vital é
chamada de prana. A maioria das culturas antigas têm o conceito
de uma força vital com presença universal, que circula no ar, na
água, na terra, nas plantas, nos animais e também no organismo humano.
Trata-se de uma essência vital que está além das estraturuas subatômicas
uma energia que se encontra em todas as formas materiais
e se concentra nos organismos vivos.
Mesmo que Paracelso e Mesmer, médicos europeus dos séculos XVII
e XVIII respectivamente) tenham trabalhado e curado com a idéia
de uma energia vital, esta perdeu a importância nas escolas ocidentais.
O conhecimento e a manipulação da essência vital foram substituídos
por um enfoque unilateral, que dá preferência a tudo o que é físico
e quimicamente medido.
Wilhelm Reich foi um médico austríaco e aluno de Freud que teve
de fugir do nazismo na década de 1930 para os Estados Unidos. Foi
o primeiro investigador do século XX a redescobrir a força vital
universal, que chamou de "orgon", e demonstrou sua existência
com experimentos científicos. Construiu acumuladores, cuja função
consistia em densificar a concentração da energia vital disponível
para aplicação posterior no campo da medicina e do aumento do bem-estar.
Na atmosfera hipócrita e de visão estreita das décadas de 1940 e
1950 dos Estados Unidos, suas descobertas enfrentam uma grande resistência
nos círculos médicos e sobretudo da Federal Drug Administration
(FDA), que o acusou diretamente de farsante pela divulgação dos
acumuladores de orgon. Como ele não respeitou a proibição, foi castigado
com uma temporada na prisão, e seus livros foram queimados em praça
pública. Wilhelm Reich, que durante muito tempo foi perseguido pelo
desenvolvimento de sua "Vegetoterapia", a primeira forma
de psicoterapia com orientação física que surgiu no Ocidente, e
também por suas idéias socialistas e comunistas, não suportou esta
última humilhação e morreu no cárcere.
Enquanto os norte-americanos não queriam nenhum envolvimento com
o conceito de energia vital, os soviéticos dedicaram-se, também
por razões militares e estratégicas, a realizar muitos experimentos
com a força vital, que denominaram de "bioplasma". Seus
trabalhos científicos levaram, entre outras coisas, ao desenvolvimento
da fotografia Kirlian, que torna visível o campo energético ou aura
dos organismos, bem como da matéria inerte.
As civilizações muito evoluídas da Índia e da China desenvolveram
há três ou quatro mil anos atrás, técnicas de meditação e métodos
terapêuticos para prevenir e curar enfermidades com o aumento da
concentraçãoda energia vital. Na Índia, sobretudo nos Vedas e Upanishads,
foram expostos diversos sistemas de ioga física e espiritual como,
por exemplo, a Hatha-Ioga, a Bhakti-Ioga e a Raja-Ioga. Na China
já são diferenciadas as diversas formas do chi, que são percebidas
e utilizadas terapeuticamente.
Os conceitos mais importantes da medicina chinesa relacionados à
força vital são Shi e Hsu. Shisignifica abundância ou excesso de
chi, que se manifesta sob a forma Yang, com sintomas de calor como
inflamações, dores pungentes e febre. Hsusignifica falta de provisão
ou carência de chi, que nos leva com freqüência a Yin, ou sintomas
de frio, como estar desequilibrado, ter sensação de surdez, edemas
e dores crônicas, ou estar mesmo surdo. Com os exercícios dos meridianos
descritos neste livro é possível, se eles forem praticados regularmente,
equilibrar o excesso ou insuficiência de chi nos diversos meridianos
e, por conseguinte, nos órgãos correspondentes, melhorando com isso
a saúde e a qualidade de vida.
Os chineses fazem uma distinção entre o chi adquirido e o chi inato
que herdamos de nossos pais e antepassados, ao qual chamam de "energia
ancestral". Essa energia fica armazenada nos rins. A energia
ancestral é necessária para o corpo utilizar o chi que se encontra
no ar e nos alimentos.
O Aquecedor Médio no ventre é a estufa onde se "cozinha"
a energia substancial ou Zong chi dos alimentos e dor que ingerimos.
A energia ancestral é o combustível necessário para o processo de
cozimento. O Zong chi, que se produz no ventre, flui para cima,
para o peito, abastece o coração e os pulmões e se diferencia em
Zong chi e Wei chi. Yong chié a forma de chi que nutre e constrói
a substância corporal. Wei chié a energia protetora que defende
o organismo contra as influências nocivas do exterior.
AS CINCO FORÇAS NATURAIS OU OS CINCO ELEMENTOS
Com os conceitos taoístas dos cinco elementos
descreve-se minuciosamente a relação entre as forças naturais, o
corpo e o espírito. Em todas as manifestações da natureza, entre
as quais está incluído o ser humano, observa-se o efeito das mesmas
forças e leis.
Na cultura ocidental foram formuladas as leis do mundo físico. Elas
se limitam a aceitar unicamente aquilo que pode ser medido com métodos
físicos e não podem ser aplicadas ao mundo das emoções e pensamentos,
nem ao mundo da fantasia e da intuição. Isso nos levou a uma cultura
unilateral, descrita em várias ocasiões: nossos conhecimentos do
mundo material são muito ricos, precisos e variados e, apesar disso,
nosso conhecimento das leis do mundo espiritual e psicológico é
pobre, confuso e especulativo. Essa superioridade unilateral se
expressa de tal modo que não nos damos conta das limitações que
encarceram nossa mente. Um estudo sobre o I Ching*,
o Livro das Transformações, o mundo espiritual dos lamas tibetanos,
mestres zen japoneses ou xamãs indígenas mostra a existência de
dimensões que superam de muito o psicológico e o conhecimento religioso
das culturas européias.
A antiga cultura chinesa formulou as leis da natureza de tal modo
que conseguiu explicar tanto os fenômenos observados no mundo material
quanto os do mundo espiritual, além de encontrar uma relação enter
eles de acordo com essas mesmas leis. A separação entre um mundo
material e outro imaterial não existia, ao menos segundo nosso ponto
de vista. Nas pessoas daqueles tempo existia a crença de que o mundo
é um jogo de conjunto, de espíritos e demônios, de forças e de elementos
naturais.
Como nas culturas que não dispõem de uma proteção técnica, essas
pessoas tinham medo e um enorme respeito pelas forças naturais:o
calor do verão que causa a seca, os tufões, as ondas gigantescas
ou a ira dos deuses que se expressa no trovão. Era necessário invocar
os espíritos protetores e contentar os demônios. Terra e fogo, céu
e água eram divindades, cujos sinais era preciso levar em conta
caso se quisesse sobreviver.
Os seres humanos começaram a observar e reunir experiências, que
depois transmitiam de geração a geração. Observaram os ciclos da
vida, o trajeto dos astros, as mudanças das estações e o firmamento.
Também observaram os fenômenos da natureza na estreita relação com
o homem, seus sentimentos, sua maneira de pensar, seus sonhos e
suas doenças.
Nessas observações se cristaliza o ensino do Tao, que se descreve
também como "o inominável, aquilo que dá origem a tudo sem
ter direção alguma, nem vontade, nem objetivo. Aquilo que é."
Do Tao surge a polaridade: Yin e yang, terra e céu, matéria e energia.
De Yin e Yang nascem os Cinco Elementos que fazem surgir o mundo
tal como é, que lhe dão forma, que o mantêm e o dissolvem de novo.
É
importante compreender que nosso conceito de "elemento"
não tem nada a ver com o conceito chinês. Os chineses não entendem
elemento como uma substância material, e sim como uma força ou dimensão
do universo. Vemos nas traduções que o conceito de elemento não
se reduz a forças da natureza; descreve, ao contrário, as regularidades
geralmente aceitas, ou princípios. Ao falar de elementos eles estão
se referindo a fases de transformação da variedade de manifestações,
da descrição de estados energéticos que voltam regularmente, coisa
que coincide de maneira surpreendente com os conhecimentos da física
moderna, sobretudo com sua idéia básica, a mecânica quântica e a
Heisenbergsche Unschärferelation. Cientistas reconhecidos como Niels
Bohr e Fritjof Capra reconheceram e demonstraram essa correspondência.
Segundo a visão chinesa, os Cinco Elementos expressam-se em todas
as manifestações do cosmo: no firmamento, nas estações do ano, no
clima, nas estrelas, nas plantas e nos animais, e também nos estratos
rochosos e no ser humano. Os sentidos, órgãos e tecidos dos seres
vivos acompanham os elementos, assim como os sentimentos e faculdades
espirituais. Os elementos são forças que se mantêm mutuamente em
equilíbrio, que se produzem mutuamente, que se transformam umas
nas outras e se reprimem umas às outras. Quando a relação de forças
dos elementos está em desequilíbrio, este se manifesta no ser humano
como mal-estar e doença, e numa sociedade com debilidade, injustiça
e guerra. Quando os elementos num ser humano, assim como num povo
ou num país, encontram-se em igualdade de forças e em equilíbrio,
há harmonia, saúde e beleza.
PARTE III
O ELEMENTO FOGO
A força do Fogo manifesta-se ao meio-dia
e no sul (no hemisfério norte), em todas as épocas de floração,
no calor e no verão. No ciclo Sheng o Fogo vem depois da Madeira:
com a madeira se faz fogo. É chamado de Yang velho. No organismo
humano o fogo é representado pelo Coração e pelo Intestino Delgado,
pelo Pericárdio ou Mestre do Coração (Circulação-Sexo) e pelo Triplo
Aquecedor. Manifesta-se também na língua e nas artérias, veias e
capilares. Seu líquido corporal é o suor.
A natureza da Madeira é a expansão e o crescimento em todas as direções.
A força do Fogo está dirigida verticalmente para cima. Vem das profundezas
da terra para o céu, da matéria para o espírito, da esfera apática
para a consciência. A força do Fogo toma a direção contrária à da
força da gravidade. No campo espiritual-emocional o Fogo gera a
alegria, a dança e o riso, a visão glohal e a consciência. Suas
cores são o escarlate e o vermelho
Na China antiga havia uma cultura da corte com hierarquias rigorosas.
A ordem social, cujo centro era o imperador e sua corte, considerava-se
responsável pela harmonia entre o céu e a terra. Ao contrário da
filosofia grega, que se baseia no cosmo e em suas leis naturais,
e da filosofia indiana, com seus Vedas e suas Upanishads que entendem
o ser interior dos homens como dimensão essencial do universo, encontramos
no centro da cosmologia chinesa a ordem social e a ética. O comportamento
correto dos homens leva a um comportamento correto da natureza.
Quando a sociedade, a começar pelo imperador e sua corte, respeita
as leis do Tao, o país fica a salvo de épocas de grandes secas,
de epidemias, de fomes e de tufões. Essa visão social-mágica mantém
a sociedade unida.
Essa maneira de ver as coisas impregnou também a medicina chinesa,
onde se compara o organismo à corte e os diversos órgãos com as
funções da corte. Por isso se diz: quando o homem individual cumpre
suas obrigações sociais, respeita seus antepassados, acalma seus
demônios e se mantém em contato com os espíritos elementares, que
atuam através de seus órgãos, pensamentos e ações, mantém-se livre
de enfermidades.
O órgão Yin do Fogo, o Coração, era chamado de príncipe do Fogo
e soberano dos órgãos. Era considerado o centro da consciência,
do sentir e do pensar. No coração manda Shen, o espírito do Fogo.
O idelograma chinês Shen pode ser traduzido como "espírito",
"alma", "Deus", "divino" e "eficácia".
Quando dizemos que alguém tem "espírito", refletimos o
significado desse ideograma.
Shen tem duas residências. A residência de baixo é o Coração, a
partir de onde se encarrega de equilibrar os sentimentos e de favorecer
uma maneira de falar sincera. Sua residência de cima é o terceiro
olho, ou o chacra da frente, onde cria clareza de pensamentos e
consciência no modo de viver. Quando essas faculdades são encontradas
numa pessoa, seu Shenestá cheio de força e saúde. Isso se vê no
brilho e na luz de seus olhos.
Quando o Shen está confuso e sem força, esse estado se manifesta
em pensamentos pouco claros, falta de capacidade de pensar, uma
maneira pouco clara de falar que pode levar a pessoa a pronunciar
mal as palavras, a murmurar, balbuciar, gaguejar e até à mudez;
tem altos e baixos emocionais muito grandes e diversas formas de
histeria e de psicose maníaco-depressiva. Um Shen disperso e confuso
expressa-se em nervosismo, pânico, medo do público, insônia e um
olhar opaco. Todos esses sintomas têm sua base num transtorno do
elemento Fogo.
Quando a energia de Fogo está intensa demais no Coração os
chineses a chamam de Shih, excesso o exagero expressa-se
num dilúvio de palavras, fofocas, suor em excesso e tensão nervosa.
Essas pessoas acreditam que podem resolver tudo sozinhas, que podem
controlar tudo. Muitas vezes não são capazes de delegar responsabilidades
aos outros. Esta é uma característica dos estados emocionais e mentais
da doença de mandar, que provoca amiúde um enfarte cardíaco ou uma
insuficiência cardíaca. As investigações modernas da medicina ocidental
sobre estresse, doenças causadas pelo estresse e tipos de personalidade
que tendem à hipertensão e ao enfarte concentram-se naquele estado
que os chineses denominam de Shih do Coração. Como veremos mais
adiante, esse desequilíbrio surge na maioria dos casos por falta
de energia do elemento Água.
Quando a energia do Fogo está muito fraca no Coração o que
se chama Hsu, deficiência surgem as dificuldades de expressar-se
clara e compreensivelmente, e a pessoa pode até ficar "sem
fala", com o sentido do paladar reduzido ou ausente, tanto
na língua quanto na psique.
O segundo órgão Yin do Fogo é o Pericárdio, também chamado de Mestre
do Coração, ou Circulação-Sexo. É definido pela tradição chinesa
como um primeiro-ministro ou chanceler do príncipe do Fogo, seu
guarda-costas, o protetor do Coração ou sua fechadura. Sua tarefa
é proteger o príncipe de danos e derrotas, transmitir suas instruções
aos empregados e servos da corte e informar o príncipe do bem-estar
destes últimos. No ser humano gera a generosidade consigo mesmo
e com os outros, e a capacidade de irradiar calor e amor. O Mestre
do Coração mostra-se em sua capacidade de dar e de saber acolher
as dificuldades, as queixas, as críticas e o amor dos outros. Quando
essa capacidade está bem desenvolvida, a pessoa é capaz de tomar
algo "a peito", ou de deixar o seu coração falar. É carinhosa
e calorosa. No outro extremo estão as pessoas que dizemos ter um
coração frio, um coração de pedra, que são mesquinhas e que não
lhes toca o coração. Nesse contexto seria interessante observar
que uma pericardite que transcorre com dificuldade pode se converter,
a nível orgânico, na chamada "couraça do coração".
Na fisiologia chinesa estão incluídas nas funções do Coração e do
Pericárdio também o sistema circulatório e sua regulação. Por ele
passam as artérias e veias como um "tecido" que pertence
ao Fogo. Trata-se aqui de uma unidade funcional de coração, pericárdio,
vasos sangüíneos e todos os hormônios e mecanismos de regulação
que, aumentando ou reduzindo os vaoso, mantêm e dirigem a circulação
sangüínea. Nos textos chineses clássicos o Mester do Coração é chamado
muitas vezes de Rim-Yang, e parece comprovado que se trata do conceito
mais antigo. Na medicina chinesa mais recente, o Rim-Yang está associado
às glândulas supra-renais, cuja função principal, além de sua tarefa
relacionada ao metabolismo, é dirigir a circulação sangüínea e manter
o equilíbrio hídrico e dos eletrólitos. Essas definições mostram
até que ponto o Mester do Coração assume uma postura central entre
o Rim e o Coração, entre Água e Fogo, entre o pólo superior e o
pólo inferior do ser humano.
Nesse contexto é preciso mencionar que os chineses diferenciam no
organismo humano seis camadas de energias. Cada uma delas é nutrida,
mantida e regulada por dois órgãos. A mais profunda dessas camadas,
o núcleo de nosso corpo e de nossa personalidade, é composta pelos
Rins e pelo Coração. Em alemão há um provérbio que reconhece essa
relação: "provar alguém de rim e coração" (no sentido
de colocá-lo à prova). Coração e Rim constituem a polaridade de
Fogo e Água, de céu e terra, de cima e debaixo, de Deus e do Demônio,
de Zeus e Hades, de Júpiter e Plutão, é o eixo vertical do ser humano.
Num sentido mais amplo, é também a polaridade de cabeça e tronco.
Enquanto na Índia Shiva, o destruidor, é cultuado em igualdade de
direitos com Brahma, o criador e com Vishnu, o conservador, e na
China se considera fundamental o equilíbrio entre o que está em
cima e o que está embaixo, a direita e a esquerda como uma meta
a ser alcançada, a cultura ocidental atribui ao pólo de cima uma
valoração de superioridade. Essa valoração levou a uma aspiração
unilateral pelo alto e pelo bom, "de chegar ao céu" e,
por outro lado, a criar o mal e o conceito de inferno. De acordo
com essa idéia, as culturas ocidentais valorizam as regiões do Fogo
o amor, a língua e o espírito ("No princípio era o Verbo,
e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus" é o início do
Evangelho de João) muito mais que as profundezas da Água
sexualidade, meditação e contemplação das camadas arcaicas
da alma.
Uma relação existente entre o Rim e o Coração através do Mester
do coração revela-se numa sexualidade satisfatória, que causa alegria
e até o riso. Há um intercâmbio harmônico entre o dar e o receber,
na capacidade de saber dar e receber amor. É característico que
nossa cultura, embora libere a sexualidade de sua condenação, valoriza
mais o orgasmo físico, que é uma função do elemento Água, que o
espiritual.
Ainda que o Coração e o Pericárdio sejam os órgãos Yin do mesmo
elemento, diferenciam-se bastante em seu campo de atuação. O Coração
é responsável basicamente pelos "assuntos interiores".
Suas funções são a clareza de pensamento, da linguagem, a responsabilidade
e a capacidade de ter entusiasmo. Os nomes de alguns pontos do meridiano
do Coração confirmam essa declaração. Shenmen (C7) significa "porta
do espírito" ou "porta da consciência", Tongli (C5)
significa "contato com o interior". Mas o Pericárdio é
responsável pelos "assuntos exteriores" e regula o batimento
e a freqüência cardíaca a nível orgânico, e a circulação do sangue.
Um sintoma de falta de energia no Pericárdio é mãos e pés frios.
Uma pessoa que tem pouco calor carece de energia no Pericárdio,
assim como aquela que vive a sexualidade com pouca alegria; uma
pessoa tacanha, a quem custa muito dar; uma pessoa que demora muito
a "esquentar", ou uma pessoa fechada que nunca sorri.
Na verdade os pontos do meridiano do Coração são utilizados sobretudo
para o tratamento de transtornos psíquicos como insônia, nervosismo,
histeria, depressão e epilepsia, assim como transtornos da fala
e dificuldades de ouvir os outros. Os pontos do meridiano do Pericárdio
ajudam mais no caso de doenças cardíacas a nível físico como, por
exemplo, dor no coração, angina pectoris, taquicardia, transtornos
do ritmo cardíaco e debilidade circulatória. Mas alguns deles têm
uma ação marcadamente psíquica.
O órgão Yang acoplado ao Coração é o Intestino Delgado. A chave
da compreensão de sua função é a assimilação dos alimentos no processo
de digestão. Do mesmo modo que a nível orgânico o Intestino Delgado
se encarrega da absorção dos alimentos pelo sangue, também é responsável
no espiritual pela assimilação de idéias. A falta de energia no
Intestino Delgado é vista nas pessoas que absorvem conhecimentos,
convicções e idéias fixas de outras pessoas sem antes digeri-las
e que não conseguem formar, segundo seus próprios critérios, as
próprias visões. Uma pessoa que tem a capacidade de assimilar é
reconhecida por um sorriso sutil e silencioso nos olhos e em redor
dos lábios.
O Mestre do Coração é acoplado ao órgão Yang Sanjiao, o Triplo-Aquecedor,
um órgão que é mais um conjunto de funções que uma realidade orgânica.
Segundo os ensinamentos chineses, existem "três cavidades ardentes"
no organismo: a cavidade torácica (para a função respiratória),
a cavidade abdominal (para a função) digestiva) e a cavidade pélvica
(função excretora e reprodutiva).
A tarefa do Triplo-Aquecedor é coordenar entre si esses espaços
funcionais como, por exemplo, ajustar a profundidade e freqüência
da respiração aos processos de digestão ou sexualidade, e a regulagem
da temperatura e do equilíbrio. Parece que o conceito chinês de
Sanjiaoengloba vários centros de regulagem da temperatura corporal
no cérebro, sobretudo no hipotálamo. O Triplo-Aquecedor é o mais
complexo e, por isso mesmo, a conexão de funções do organismo mais
fácil de desequilibrar. Nos textos clássicos aparece como mininistro
do exterior do Fogo, como protetor dos órgãos Yin e Yang, e como
ministro da energia, que supervisiona as diversas formas de chie
garante sua distribuição por todo o corpo.
Quando o Fogo está em equilíbrio numa pessoa, o verão lhe traz alegria
e satisfação. Uma pessoa assim tem equilíbrio interior e contempla
os acontecimentos desse ponto de vista. Sabe quando deve falar,
e quando deve car-se. Alegra-se sem cair no pieguismo, sabe guiar
e dirigir os outros e sabe também quando é hora de se retirar. Seus
olhos brilham. Conhece a bondade e a generosidade, e tem bom gosto.
*Uma versão deste livro pode ser encontrada na coleção Arca da Sabedoria,
do Editorial Edaf.
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